5.11.09
1.11.09
antes de agora, o que significa algum tipo de tempo atrás e a fronteira é sempre tênue, eu não tinha condição de gostar de jazz e me lembro disso com uma nitidez desconcertante. condição no sentido de que era completamente incompetente. e não me refiro aqui a algum tipo de competência contemporânea que te distingue do outro a ponto de atropelá-lo. falo de uma competência que te permite perceber, sentir, viver, escolher, entender. eu não sabia que era um texto, uma história, trocentas nuances, vidas e vozes. conversando, gritando, chorando, rindo, falando. o equilíbrio distante, a delicadeza e violência, arrebatamento, atravessar um linha entre dois pontos, mergulhar no maior dos abismos, a coragem de tentar. fazer. florescer. o mesmo fato que você vê, visto de dentro de outra pessoa. o fato que você não vê, visto de dentro de você, por outra pessoa. o outro fato que você vê, visto de dentro do outro em relação a você. que me vê do outro lado. contra a lei da gravidade, notas que flutuam, que apedrejam, que acariciam, que desnorteiam. à inversão do norte para que não rime com morte. sentir cheiro de terra molhada, olhar a nuvem passar, despertar, dançar, gozar, ver a sombra da nuvem no chão. ver albatroz cruzar o céu. um tomate pra cumprimentar o alface. o roçar do dedo numa pele. na pele. a pele que entranha, elétrica. a única pele que te separa do outro, de outro mundo, de todo mundo, de todo outro. fina película que troca. que toca. o jazz que toca.
31.10.09
ele acredita que o destino mais glorioso do homem é ficar imóvel, sentado no seu grande sofá ou grande poltrona, ou grande carro, ou grande lancha, ou grande casa enquanto manda o assistente providenciar, a secretária ligar, a empregada limpar, a mulher resolver. ele acredita e persegue, como um ideal, o prêmio, o fim, a forra, a conclusão, o futuro. quem não faz sucesso é fracassado e tudo o que quer é um fim de semana, um feriado, uma folga, um reconhecimento, uma compensação. sempre soube, sempre quis e se orgulha em dizer “sacrifiquei minha vida pessoal pra chegar onde cheguei e sei extamente o que estou fazendo. optei por isso”. porque o resto do tempo é tudo um grande sofrimento, uma grande tortura, uma puta e fudida azucrinação. teu colega é incompetente, tua estagiária, burra, teu chefe, arrogante, tua secretária, gostosa, tua mulher, chata. e você não tem a mínima idéia de como eles foram parar ali, ao teu lado, só tem certeza de como você chegou ali, acima deles. e de que não quer largar por hipótese nenhuma tudo que conquistou. teu chefe te fudendo, tua secretária se fudendo, tua mulher fudendo. você entra no seu carro e vai pro shopping. você entra no melhor restaurante e bebe um uísque. você volta pra casa no condomínio. você acorda e vai pro escritório. você sai e corre na academia. você tem um vôo marcado. você aceita e o mundo é assim.
2.9.09
tinha o caráter forjado a tédio. já tinha sido artista, mas disso se lembrava muito pouco, tinha sido há muito tempo. algo que o lembrava a juventude e só. agora gostava mesmo era de ostentar seu cabelo branco a la rc e de se sentar atrás de sua grande mesa de mogno. o momento que mais saboreava era quando as pessoas entravam em sua sala e o viam naquela posição magnânima, soberana. passava dias inteiros esperando por eles e depois passava dias inteiros relembrando sua performance, os olhares, as reações previsíveis, os gestos inseguros da disfarçada sede de seduzir. o desejo sexual tinha sido substituído pelo desejo de poder, mas quanto a isso não se preocupava mais, tinha feito uma boa troca. o que lhe dava tesão mesmo era sucesso, mármore, whisky, puta, convite, vip, artista. tinha claramente passado pro outro lado e isso o agradava, o fazia sentir mais forte. olhava aqueles wannabes todos com um profundo desprezo, mas isso nunca ia admitir.
ela sabia que podia se meter em encrenca entrando ali assim e falando aquelas coisas, só que o que ele não sabia é que pra ela não tinha mais importância.
importância era justamente o que dava força pra ele. ele se sentia muito importante e era cercado por pessoas que também se achavam muito importantes e que por sua vez estavam cercadas de pessoas que queriam muito ser importantes, mas essas eram quase sempre desprezadas.
se você desistisse dela, ele virava nada.
tinha um expediente minucioso que funcionava. foi aprendendo aos poucos, através dos anos, silenciosamente observando a dança das outras vaidades que se exibiam na sua frente. pra isso, abriu mão da sua por muito tempo, mas só pra poder gozar melhor. só pra gozar esse exato momento. e agora gozava, só que nunca por muito tempo. ah, o tempo, ele suspirava. se ao menos eu pudesse comprá-lo. o prazer. precisava sempre do prazer e agora a intervalos menores. evitava receber aqueles por quem pagava. evitava mesmo mencionar seus nomes e sua existência. também não sabia fazer elogios. nunca soube. e também gostava disso. por causa da sua posição e da sua estratégia, arriscava um de vez em quando, mas tinha tanto medo de ser flagrado que acabava formulando sentenças complicadas. alguns podiam ver, eram poucos, mas podiam ver. viam que quando elogiava alguém, uma gosma verde e putrefata se desprendia de sua orelha. os cabelos a la rc serviam pra isso. lembrar da sua juventude, do tempo que era artista, e disfarçar a tal gosma verde que saía quando elogiava. mas agora já quase não fazia mais isso. elogiar. e também nem era preciso. tanta merda nesse mundo, vou elogiar o que. tanta falta de talento, um bando de bostinha querendo brilhar.
a frieza dele vinha da secura, a dela vinha do sangue.
ela não tinha mais nada a perder. ele agora tinha. ele ainda não sabia.
continuou vendendo e comprando. estava cada vez melhor nisso. tinha que admitir, nunca imaginou que ficaria tão rico. não precisava fazer mais nada e nem mesmo a sua equipe incompetente conseguia lhe deter. não se livrava dela porque ainda se sentia bem vendo seu esforço inútil, uma eterna e estúpida vontade de agradar, de ser promovido, de ganhar dinheiro. seus sócios estavam ficando mais velhos, talvez morressem logo, talvez ele agora tomasse conta de tudo… a próxima coisa que compraria seria uma história, certamente estavam precisando de novas histórias por ali e ele, pra variar, seria o único a atentar pra isso e, naturalmente, providenciaria tudo. nunca contava com ninguém, era muito enfadonho. preferia mandar e pronto, limpo e indolor. preciso comprar uma boa história… essa secretária medíocre, vive me interrompendo em momentos importantes, imbecil, é por isso que é secretária, mas é gostosa, muito gostosa. é bom ter secretária gostosa, todo mundo te inveja. vou chamar ela aqui e enfiar a mão dentro da calcinha, sentir sua buceta quente, sua puta. no fundo o que você quer é dinheiro, não é? poder, não é? eu tenho tudo isso. entra. oi, quem? ah, tava marcada? ok, tá certo, pode mandar a moça entrar, obrigada minha querida e por favor não me interrompe, ok, só se eu pedir. ah, providencia pra mim a lista de contatos dos melhores…
31.8.09
18.8.09
cansei de perguntar pra que eu sirvo. a primeira coisa que te dizem é pra esquecer dos sonhos. a anestesia vem depois.
vai! vai! vai logo esvaziando os bolsos. com sonho já vi vários se machucarem por aqui, é proibido. pode se convencer que nunca vai conseguir, aí entra. criança sonha diferente, mas agora você não é mais criança. e aqui não entra criança. suas células já trocaram mais de 5.000 vezes, então você já mudou inteirinho. é adulto, se liga. tem várias coisas que você vai ter que saber e também tem várias regras. o verbo aqui é tem que. tem que fazer, tem que ir, tem que ter. aqui tem regra e aqui ninguém erra, ou ao menos não admite que erra. isso já é razoável. um mundo de opções. aqui você tem probabilidade, publicidade, chance de ganhar na loto, fim de semana, futuro e esperança! aqui você também quer ordem e progresso, ordem e limpeza. ordem e beleza. tudo muito arrumadinho, tudo muito certinho, você vai ver, você vai gostar, não pensa muito, atravessa essa linha,
definição é uma coisa que as pessoas usam pra se aproximar das coisas
e que nunca as leva lá.
13.8.09
e quem disse que não é pra ocupar espaço e foi eu mesma que de alguma forma me disse achando que ocupar espaço era alguma forma egoísta ou que tirava o espaço de alguém. e porque tanto pensamento pra saber, tanta falação, ensaio, enrolação em vez de vai. vai lá e faz. porque tanta fé na falta. meu deus, você que tá fora e também disso, porque tanta falta de fé. e quem foi afinal esse sujeitinho engomado que te disse que de todos, você, logo você, era o que não era viável? os desvios também podem ser os caminhos e caminho é qualquer coisa que você escolha e percorra e tem muitos e tem aqueles que são os seus. onde você passou esse tempo todo? ou, desculpe, estou sendo intolerante, em quem foi mesmo que você acreditou? tô acreditando agora que é possível ser errado, só porque por aqui não foi nem o certo nem o errado, tem é o que é e eu achei isso muito interessante porque é muito melhor quando você se deixa isso. e apesar de saber,
às vezes você ainda não sabe direito porque tem outros saberes que estão sempre numa fila e aí você acha pior ainda a quantidade de tempo que fica pensando nisso, que é muito e é sobre você mesmo, e aí acha que tá se dando muita importância e pensa que na verdade todo mundo pensa nisso, e você sabe que não pode saber o que pensa o outro muito menos todo mundo, e pensa nisso porque precisa e só faz sentido quando tem ele, o outro, porque ele é a medida de você. e lá vem ele você-eu de novo, mas você também é o outro de um outro, você que é eu e de tanto se debater acaba descobrindo ou pensando, como eu, que a história de ocupar espaço na verdade é das coisas mais bonitas do mundo e pensa porque demorou tanto pra descobrir,
porque tantos poemas mentais, jamais nunca tantos ditos, mas demorar dessa perspectiva não tem a menor importância porque o que você acabou de descobrir é que simplesmente tá vivo e que também pode se sentir vivo não importa o que pensem de você, porque pensar é sempre uma coisa de vivo, mas importando sempre o que você pensa e o que você vive pensando sobre o outro, por causa de você que merece isso e tem isso não importando até mesmo o que quer que você pense. sendo sem medo é a melhor coisa que você pode, o presente que você tem e isso é libertador. o tempo todo a gente correndo e sempre atrás, sabendo que não tá atrás nem na frente, que na verdade tá e é com você, mas sei lá porque você não quer ver, não pode ver. de que tanto é esse medo? com propriedade é você dizendo porra é uma benção, no sentido de muito especial, de presente, você estar presente e a emoção disso é bom que se fale com palavrão porque expressa com força uma coisa de doido e então isso é isso. você tá aqui. entendeu? aqui e agora, já e existindo. e vai fazer o que? ok, eu também vou ter, ele também, ela também, vai ter medo geral, sempre e de vez em quando, mas não tem problema, ninguém aqui tá pagando de novidade, então foda-se o medo, em todos os sentidos.
aí ele diminui de tamanho e com o tempo ele vai ficando pequeno até que você não tem mais. com vontade incomensurável, pode ser poder ser e isso tem importância máxima e também mínima, então você pode e tá liberado e liberada pra fazer o que quiser. sem dúvidas, pode ter dúvidas, mas não quanto a isso que do espaço esse é seu e é de direito, amigo. nasceu, ganhou. mesmo que você não saiba mais nada sobre as circunstâncias desses fatos. pode ser sim. e quando não é você é o que? ser você-eu dá vontade de gritar e encontrar o outro. sem as tais notas introdutórias.
27.7.09
a porra da vida
ou esporro fudido de gozo na boca é outro e essa é a coisa
antes que a vaca tuça é necessário que você engula, essa porra desse medo que te incendeia. porra é bom, fogo também, mas volto a repetir que a porra do medo quando esporra na tua cara, na tua vida, na tua esquina, é ruim. e também não é legal e também não te ajuda e também não te protege. só te fode. fode garotão. mas fode gostoso. e não adianta reclamar que pra vida não há níveis seguros, gato. nem pra você, gata. e aí você olha na rua e vê uma porrada de coisas, mais uma porrada de pessoas, uma porrada de uma pessoa, muita porrada nas pessoas e vê que na verdade não tem verdade nenhuma que lhe caiba ou que lhe explique ou ainda que dê conta de tanta coisa absurda, porque é isso aí, é tudo absurdo pra caralho e nenhum esporro moderno conseguiu mudar isso ainda e aí é essa chuva de porra de um monte de gente querendo amar. e é tudo isso aí. e a singeleza das pessoas se arrumando pra sair pra passear, no domingo, com sua família, bate na tua cara como um soco dos infernos, a parada mais singela do universo, como é que pode isso, triste demais a solidão de cada um, porra. se comunica direito, porra, você aí. é, você, mesmo. você que também sou eu. veja você que, porra, caraca, a gente é frágil pracacete. e eu preciso me incluir nisso também. eu preciso me incluir várias coisas e excluir também. vamo excluindo tudo. tudo aquilo que não é você, veja você. também. um desfile de gente. passando, passando bem na minha frente, bem na minha cara. e eu ainda só consigo pensar que, porra, não importa as escolhas que o outro cara tenha feito ou o jeito que ele tem, teve ou terá, ou a cara que ele ostenta ou o luxo que ele deseja, todo mundo, digo como o todo de todo um mundo, todas as criaturas geneticamente semelhantes e possíveis que habitam a porra da face dessa terra querem é ser amados, porra! não tem certo, não tem errado, não tem lado. valendo sempre e somente aquilo exatamente que te acontece. que acontece com todo mundo, todo dia, toda hora, todos os segundos da porra desse tempo que eu e você temos o privilégio de simplesmente ter. grandecíssimos filhos de uma grande da puta. o puta orgasmo. a porra da vida.
4.7.09
26.6.09
17.6.09

liberou-as todas de uma vez, assim de impulso, sem nem um pensamento que ao menos lhe chegasse antes. não economizou, não se assustou, não chorou. ficou só e só foi ficando e também transparente. até já tinha imaginado, por via das dúvidas, que isso pudesse acontecer, mas soube pelo correio que nada, nem ninguém a deteria, ao menos não naquele exato instante, o que tornava a questão um simples ato de fazer o que talvez fizesse com que tudo, finalmente, enfim, fosse feito. afinal, eram verdades que não pertenciam a todos, mas algumas sempre estiveram lá e sobre isso não havia o menor sinal de dúvida. à essa altura, já sabia também, que pra ser executado, o movimento deveria ser radical, feito de um só gesto, sem hesitação, nem medo. pensava muito em libertar as verdades, ao menos as suas, do peso inexplicável de explicar o mundo. isso feito, o mundo seria finalmente sem explicação ou, na pior das hipóteses, as verdades não precisariam mais se dar a este trabalho. abriu ao máximo, máximo mesmo, a boca ao mesmo tempo que deixou de engolir. para fora era um movimento só. no seu sonho viu ainda décadas, séculos, planetas inteiros cheios de verdades brutalizadas, mal tratadas, abusadas. há muito já se sabia que o mundo não tinha explicação, mas soube, através de outra verdade, que ninguém tinha coragem de falar.
enquanto via, encantada, as verdades voando pra fora da sua cabeça, em jorro, através da boca, mas agora também dos ouvidos, observou que, no percurso, muitas se transformavam em outras, outras simplesmente sumiam e algumas se davam os braços, mesmo sendo muito diferentes. ao menos no seu mundo onde faziam questão de não guardar nada que não fosse caoticamente razoável. e isso foi o que ela disse, ou se sentiu dizendo, no intervalo de saída entre uma verdade e outra, que de forma oposta ao nascimento das pipocas, saem primeiro aos borbotões, em alta velocidade e depois cada vez mais devagar, até que a última lhe avise que saiu, momento exato em que invertem seu movimento e passam, de volta, a entrar em você, só que de outro jeito. porque já tinha percebido que cada mundo tem um jeito e, não faz muito tempo, as regras eram exaustivamente estudadas pra funcionar somente por breves períodos, no qual se podia ver todo seu resplendor.
nos lugares em que não eram úteis, as regras passavam muito pouco tempo.
sem nunca ter um início ou até mesmo a leve indicação de fim, foi observando a dança das verdades que flutuavam soltas em direção à rua, às árvores, mas principalmente em direção às pessoas. soube então o quanto as verdades se apegam e viu que geralmente é aos seres humanos. mas o que também viu em seguida foi que, por algum estranho motivo, quase ninguém percebia suas verdades em movimento, donde concluíam sempre que, na verdade, cada um tem a sua própria verdade e que, a não ser em estado de exceção, elas não devem se misturar umas às outras. que besteira, pensou, verdades gostam de si mesmas, mesmo que sejam outras. mas ela, do ponto de vista em que estava, podia perceber tudo muito mais claramente e descobriu que o ângulo aplicado a cada verdade fazia de fato seu rosto parecer diferente. sobre isso não tinha mais dúvidas. é inevitável e é verdade que as verdades passeiam, e pode até ser sobre si mesmas, porque dessa forma desenvolvem os interstícios que, por sua vez, são coisas que as fazem rir. aprendeu assim a respeitar e admirar toda a diversidade de verdades, mesmo as que não são, e chegou à conclusão que, livres, elas ficam muito mais vezes e muito mais bonitas. fato que, quem quer que se encontre com elas, é imediatamente obrigado a aceitar. depois de aceitar, estava escrito que era possível brincar. mas esse escrito durava apenas alguns segundos o que exigia necessariamente, não exatamente ler, mas realmente querer, olhar.
no instante seguinte, logo após se dissolver, ela gritou. era pra quem quisesse ouvir ou até mesmo falar, todas as novas e verdadeiras verdades que agora todos poderiam deixar de saber sobre a verdade. mas vendo-a assim, tão dissolvida, as pessoas acharam por bem se achar de bem. e de bem, no caso específico de dissolvimento, seria, geralmente, ignorar o dissolvido e ao mesmo tempo o acusar.
os homens chegam facilmente às conclusões, uma vez que costumam guardá-las nos bolsos e algumas vezes nas gavetas.
ninguém estava interessado em nenhuma verdade que não fosse a sua. para esses, ela ainda soube, o mundo deveria ser só e somente, a sua própria explicação.
11.6.09

era melhor então que se fizesse alguma coisa.
um homem gritou: quem são vocês? os loucos que enterraram o futuro, lhe fizeram um grande funeral, lhe deram uma grande banana, lhe disseram adeus?! e como ousam? uma mulher me esclareceu: ainda bem que ele era diferente porque diferente é tudo que não é você, mas às vezes, e é na grande maioria das vezes, diferente é você e é também. um monte de diferente fazendo indiferença. quem diria, disse eu. faz tempo que eu me pergunto essa pergunta, ela retrucou. qual a diferença que faz?
teve um dia, logo depois de existir, que eu passei a ser, mas era uma pessoa que eu não era e era assim por mais que eu fosse. fiquei extremamente confusa com essa situação. ser afinal serviria pra que. não, não se trata de servidão, disseram. esclareceram também que é pra vestir a vida e você poder ver.
e se eu pisar mais forte? nem assim o chão cede. e se toda a minha estupidez também for a sua? quem sabe assim nos tornamos grandes amigos. quem sabe assim o que me difere talvez faça alguma diferença que também te diferencie. porque sim, somos todos estúpidos. cada qual coberto das mais sinceras e elegantes explicações. adiando o momento exato, o único em que você pode caber.
ela nunca gostou muito de ocupar espaço. o que significa que nunca gostou de briga. por isso também tinha preferência por esportes individuais. se fosse pra competir com alguém que fosse consigo mesma.
a dor que dá no dente é simultaneamente uma dor que dá em gente. virou outra esquina e viu na calçada um homem dentro de uma caixa de papelão. homem caixa. um a um viu homens entrando em caixas. a de papelão era privilégio dos pobres. desconstruiu mentalmente a sua e seguiu imediatamente seu caminho. algo a fazia caminhar. da sola dos sapatos uma pressão que nascia embaixo. ao rés do chão. num universo reto, há sempre muitas linhas a traçar.
7.6.09
o medo te reverencia e exige que seja só dele.
de medo se faz guerra, frustração, indiferença, solidão. e se você der sua matéria ao medo, não te resta nada a não ser, não fazer.
e isso é morrer.
duvidar talvez seja uma parte da fé
escolher o que duvidar talvez seja escolher no que acreditar
cuidar
faz
coisas
ficarem
vivas
11.5.09
ajeitando a massa
embaralhando a mente
num emaranhado de gente
desembolar o fio
andar em cima
seguir o rastro
matar rato
mostrar entranha
configurar o céu
molhar a página
riscar o risco
encontrar o mar
será?
a forma como organizamos palavras, a forma como organizamos o mundo?
descartar o organismo que te organiza como algo que não pode ser desorganizadamente belo
fazer, fazer sem parar, fazer sem julgar










